
O planejamento urbano, historicamente, tende a tratar o deslocamento como uma variável neutra. No entanto, a realidade das ruas e dos sistemas de transporte revela que o gênero é um fator determinante na forma como as pessoas acessam a cidade. Por essa razão, no mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, é urgente debater como a infraestrutura de transporte público impacta a vida de quem compõe a maioria de seus usuários: as mulheres.
Em relação ao padrão de deslocamento pendular masculino (casa-trabalho), as mulheres realizam trajetos mais complexos, conhecidos como “viagens em corrente”, o que implica em paradas intermediárias para deixar crianças na escola, realizar compras ou prestar assistência a familiares. Como são elas as principais responsáveis pelas tarefas de cuidado, essa necessidade de múltiplos deslocamentos, somada a esperas em pontos muitas vezes precários, gera a chamada “pobreza de tempo”, subtraindo horas preciosas que poderiam ser dedicadas ao lazer, estudo ou descanso.
Nesse contexto, outro ponto importante é que, para a mulher brasileira, o deslocamento é marcado pelo “medo como rotina”. Isso porque a percepção de insegurança dita quais rotas serão evitadas e quais horários são considerados proibitivos. Segundo um estudo do Senado Federal de 2025 – intitulado “Urbanismo sensível ao gênero: como oferecer cidades seguras para as mulheres” –, no Brasil, o receio de agressões e o sentimento de vulnerabilidade são barreiras invisíveis que restringem a liberdade feminina no espaço público. Além disso, a falta de iluminação e a precariedade do entorno dos pontos de embarque aumentam significativamente essa percepção.
O momento do embarque, por exemplo, é frequentemente tumultuado e superlotado, sendo apontado como uma das circunstâncias que mais favorecem situações de assédio e importunação sexual. Assim, o direito à cidade muitas vezes é cerceado pelo receio de transitar em terminais ou eixos estruturais após o pôr do sol. Portanto, para que a mobilidade urbana seja verdadeiramente democrática, ela precisa ser desenhada para os usuários mais vulneráveis. Isso inclui calçadas acessíveis para mulheres com carrinhos de bebê, iluminação focada para o pedestre e sistemas de monitoramento que inibam a violência.
Nesse contexto, as cidades enfrentam o desafio de transformar seus corredores em espaços de segurança e acolhimento e, por isso, a participação ativa das mulheres no sistema de transporte não deve ser vista apenas como uma estatística de demanda, mas como um chamado para as políticas públicas sensíveis ao gênero. Pois, priorizar a segurança da mulher e da criança no transporte público é beneficiar toda a sociedade, garantindo que o tempo de deslocamento deixe de ser um fardo e passe a ser o elo de conexão com uma vida melhor e mais segura.
Eliane Kihara é engenheira mecânica e especialista do Mova-se Fórum de Mobilidade

























